Há uma coisa estranha que acontece em certos trails, raro o suficiente para ficar na memória: o momento em que o território deixa de ser um pano de fundo e passa a ser uma explicação. O Veni Vici é uma dessas corridas — não porque atravesse paisagens bonitas, mas porque segue uma lógica com dois mil anos, uma lógica que as tuas pernas acabam por compreender melhor do que a tua cabeça 🏃.
O princípio do Veni Vici é simples no papel: ligar Uzès às Arenas de Nîmes seguindo o traçado do aqueduto romano, num formato que vai de 16 a 87 km. Na realidade, é uma história completamente diferente. Porque este percurso não foi desenhado apenas por um organizador de trail à procura de panoramas bonitos e de uma experiência memorável 😍. Antes disso, no século I d.C., os engenheiros tinham um único problema para resolver: fazer a água da nascente fluir de Uzès até Nîmes, ao longo de 50 quilómetros, apenas pela força da gravidade, sem perder uma única gota no processo 💧. Foi assim que o caminho nasceu. A diferença total de altitude entre os dois pontos? Doze metros em cinquenta quilómetros. Quando corres o Veni Vici, estás a seguir a inclinação que a água seguia há 2.000 anos.

(Crédito da foto: Veni Vici)
Podes pensar que Uzès foi escolhida como ponto de partida porque a cidade é bonita, porque o Ducado dá uma foto perfeita antes da corrida, porque o ambiente está lá 🎉. Isso é verdade, mas não é a razão. Os romanos escolheram este lugar muito antes de o Ducado existir, por um motivo puramente prático: as nascentes do Eure, que brotam no vale lá em baixo, eram as únicas que combinavam um caudal suficiente e uma altitude ligeiramente superior à de Nîmes. Ligeiramente (apenas doze metros de diferença). Mas era tudo de que precisavam! 😎
Os primeiros quilómetros seguem este vale fresco e um pouco encaixado que a maioria dos visitantes do Gard não conhece. Aqui, nenhum monumento espetacular, nenhuma placa interpretativa. Apenas as primeiras alvenarias do aqueduto a emergir entre a erva — discretas, quase tímidas. É um bom momento para perceber que esta corrida não te vai mostrar a história: vai fazer-te atravessá-la 🏹.

(Crédito da foto: Veni Vici)
A maioria das pessoas vê o Pont du Gard a partir do estacionamento 🅿️, da margem do rio, de uma esplanada de restaurante... Vê-o como um monumento vertical — majestoso, fotogénico 📸. Os corredores do Veni Vici veem-no de outra forma, porque chegam lá depois de trinta ou cinquenta quilómetros já nas pernas, tendo atravessado as pedreiras de Estel em Vers-Pont-du-Gard. É exatamente aqui, 600 metros a jusante da ponte, que foram extraídas as pedras de que ela é feita 🪨. Uma pedreira classificada como Monumento Histórico que quase todos os visitantes do local ignoram.
Quando sabes de onde vêm as pedras, quando já correste a distância que separa a pedreira do monumento, o Pont du Gard deixa de ser uma curiosidade e passa a ser o que é: a solução para um problema de engenharia. Como transportar um canal de água por cima de um rio sem perder o declive? Quarenta e oito metros de altura, três níveis de arcadas, blocos que podem pesar até seis toneladas. É vertiginoso — ou desnorteante, não temos bem a certeza 😅. Além disso, podemos dizê-lo: é simplesmente ma-gni-fí-co! (Os corredores do Veni Vici garantem 💯). É um bónus nada desprezável! 🤫

(Crédito da foto: Veni Vici)
Entre Saint-Bonnet-du-Gard e Sernhac, enterrados no mato mediterrânico, dois túneis escavados na rocha no século I continuam a ser dos locais menos conhecidos de todo o percurso do aqueduto. As equipas romanas trabalharam ali a partir de ambas as extremidades ao mesmo tempo, no escuro, guiadas por poços abertos desde a superfície. Nas paredes ainda se distinguem marcas de ferramentas, entalhes para lamparinas de óleo 🪔 e, por vezes, ligeiras correções de traçado quando as duas frentes de escavação não se encontravam perfeitamente alinhadas. Aqui o aqueduto resolveu um problema simples: fazia mais sentido perfurar a colina do que contorná-la, arriscando perder aquele famoso declive 🧐.
Muitos corredores do Veni Vici passam por esta zona sem saberem exatamente ao lado de quê estão a correr. Agora já não há desculpas! E, vá lá, admitamos: é sempre o tipo de anedota divertida para partilhar e impressionar junto da máquina do café... ou durante uma partida frenética de Trivial Pursuit! 🧀

(Crédito da foto: Veni Vici)
Há uma honestidade no percurso do Veni Vici que se aprecia cada vez mais à medida que os quilómetros passam: este percurso não faz desvios só para chegar a miradouros bonitos 🏞️, não cede à lógica do folheto turístico. Segue a terra como ela é: garrigue seca, cristas calcárias, aldeias occitanas típicas: Castillon-du-Gard, Lédenon, Cabrières.
E, no entanto, era também por aqui que o aqueduto passava, enterrado, invisível, mantendo o seu declive milimétrico sob os pés de gerações que se sucederam sem o saber. Vários participantes habituais do Veni Vici, da região, dizem que descobriram algumas destas aldeias no dia da corrida. Há algo de bastante belo na ideia de que um evento desportivo possa devolver a um território a coerência que o turismo lhe tirou 🏡.

(Crédito da foto: Veni Vici)
O sprint final para dentro das arenas de Nîmes é uma das chegadas mais singulares do trail running francês. A água do aqueduto chegava a Nîmes a uma bacia de distribuição situada a poucas centenas de metros das arenas, de onde era encaminhada para as fontes ⛲️, os banhos, os bairros da cidade. As arenas, por sua vez, podiam acolher 24.000 espectadores numa cidade de 50.000 habitantes — era ali que se concentrava a vida pública romana.
Terminar a tua corrida a correr na areia, sob abóbadas com milénios, com as bancadas à tua volta 🏟️, é o culminar de uma viagem que alguém calculou muito antes de todos nós, por razões que nada tinham a ver com trail running e tudo a ver com gravidade, pedra e água. Chegaste onde a água chegou — agora podes aproveitar a festa.
Então, vais tu também conquistar o Veni Vici no próximo novembro?
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