Em 2026, a Maratona de Veneza celebra o seu 40.º aniversário. Quarenta edições de outono veneziano, nevoeiro sobre a lagoa e milhares de corredores de todo o mundo a virem viver o que é provavelmente a maratona mais cinematográfica do planeta. Para a ocasião, fomos aos arquivos e contamos-lhe tudo: o percurso, os recordes, as histórias, as dificuldades e as grandes primeiras vezes, desde o início.
Para entender o que representou a primeira edição, é preciso começar por um detalhe saboroso: em 1986, correr nas ruas de Veneza era oficialmente proibido. A cidade mais frágil da Europa, administrada por uma burocracia zelosa das suas pedras e canais, simplesmente não tinha previsto que as pessoas pudessem suar entre os seus palazzi. Organizar uma maratona nestas condições foi tanto um feito administrativo quanto uma visão desportiva.
Foi Piero Rosa Salva quem levou este projeto um tanto louco — quem convenceu, negociou, insistiu e, por fim, conseguiu as autorizações necessárias. A 18 de maio de 1986, 713 corredores partiram de Stra em direção a Veneza. O percurso dessa primeira edição terminava no Campo Santi Apostoli, no bairro operário de Cannaregio. Não era o cenário mais glamoroso da Sereníssima, mas foi o que os organizadores conseguiram arrancar às autoridades. O público veneziano — curioso e entusiasta — alinhou-se ao longo das margens para ver passar este espetáculo inédito. A reação foi imediata: isto funciona.
Salvatore Bettiol venceu a prova em 2:18:44, com Paola Moro a conquistar o título feminino em 2:38:10. Um pódio 100% italiano 🇮🇹. Bettiol repetiu o feito no ano seguinte e tornou-se o primeiro “leão” na lista de honras — uma imagem que também deu à corrida o seu logótipo: o Leão alado de São Marcos, símbolo de Veneza há séculos, gravado em cada medalha de finisher 🏅.
Uma das grandes histórias da prova é o seu percurso. Ao longo de 40 anos, o traçado nunca deixou de ser enriquecido, alterado, empurrado em direção ao coração da cidade. Cada mudança foi conquistada em batalhas duras com uma administração que gere Veneza pelo que ela é: um património mundial a proteger tanto quanto uma cidade para viver.
Nos primeiros anos, a corrida manteve-se confinada ao que era razoavelmente possível fazer atravessar por milhares de atletas. Depois, em 1991, tudo mudou. Pela primeira vez, os organizadores obtiveram autorização para que os corredores atravessassem o Grande Canal, através de uma ponte de barcaças flutuantes construída especialmente para a ocasião. A meta mudou para Ca' di Dio, muito mais perto do coração histórico. Essa ponte flutuante — montada alguns dias antes da prova, desmontada na noite seguinte — nasceu nesse dia. Mais do que qualquer outro elemento, foi ela que transformou uma boa maratona numa experiência única.
Os anos seguintes trouxeram a sua quota de melhorias. O percurso ganhou uma passagem pelo centro de Mestre, transformando a corrida numa verdadeira viagem do interior do Véneto até à lagoa. O Parco San Giuliano (o segundo maior parque da Europa) entrou no percurso e tornou-se um dos pontos de apoio mais animados de toda a prova 🌳. Mais recentemente, foi o novo complexo cultural de Mestre, o M9, que se abriu caminho no traçado, ancorando a corrida numa cidade que se reinventa.
Mas o grande momento de consagração chegou em 2011, quando a Piazza San Marco passou oficialmente a fazer parte do percurso. As imagens resultantes deram a volta ao mundo e tornaram-se o postal definitivo da prova. Milhares de corredores atravessam agora a praça mais fotografada do planeta, entre o Campanário e a Basílica. Antes dessa data, o percurso contornava a zona sem realmente entrar nela. Desde então, correr em Veneza significa mesmo correr por dentro de Veneza.

(Crédito da foto: Jorge Franganillo)
Hoje, o trajeto da "Venice Marathon" é uma obra de arte por si só 🎨. Começa em Stra, em frente à Villa Pisani, cujo parque barroco do século XVIII abre excecionalmente os seus portões para receber os corredores antes da partida. Os primeiros 30 quilómetros seguem a Riviera del Brenta através de uma paisagem de villas nobres cujas fachadas se refletem nas águas do Brenta. Plano, rápido, propício a boas sensações. É aqui que se gere o esforço, porque se sabe o que vem a seguir.
Depois de Mestre e do Parco San Giuliano, o percurso leva à Ponte della Libertà 🌁: quatro quilómetros de linha plana e reta ligando o continente à ilha 🏝️. A vista sobre a lagoa é de cortar a respiração — e por vezes o vento de frente também 💨. É aqui que a corrida muda de verdade, onde as pernas começam a negociar e a mente entra em cena.
Entra-se na cidade pelas Zattere, dois quilómetros de marginal ao longo do Canal da Giudecca, e depois chega o momento mítico: a ponte flutuante de 170 metros construída sobre o Grande Canal na Punta della Dogana. Em seguida, a Piazza San Marco e o Palácio Ducal, e depois as 14 pontes dos últimos 3 quilómetros: passadiços de madeira instalados para poupar aos corredores exaustos os degraus — algo que também beneficia passeantes e malas de rodinhas até ao Dia de Reis, obrigado maratona 👏. A meta é na Riva Sette Martiri, de frente para a lagoa e para a Bacia de São Marcos. Plano e rápido em 85% do percurso, francamente brutal no fim, e inesquecível ao longo dos 42,195 km.
(Crédito da foto: Venice Marathon)
Em 1986, 713 corredores alinharam à partida. Em 2005, 7.000 participantes só na maratona. Hoje, a prova está limitada a 8.000 dorsais para os 42 km — um número ditado tanto pela logística de atravessar Veneza quanto pelo respeito pela cidade e pelos seus habitantes. A isso somam-se os 10 km (lançados nos anos 2000 e reunindo até 7.000 corredores por si só), a meia maratona de Mestre a Veneza (introduzida em 2022, já com 4.500 participantes na sua terceira edição) e a Family Run criada em 2006 para abrir o fim de semana a famílias e crianças 🧒. No total, isso faz um evento de mais de 15.000 pessoas ao longo do fim de semana, sem que a doce loucura do conjunto desapareça.
Os corredores franceses, por sua vez, criaram uma ligação particularmente forte a esta prova e, durante muitos anos, têm representado o maior contingente estrangeiro depois dos italianos.
Há uma coisa em que todos os relatos concordam: é impossível transmitir a atmosfera por palavras ou imagens. Os venezianos — que não são propriamente conhecidos pelo entusiasmo perante grandes multidões — transformam-se no dia da corrida. Saem para as margens, inclinam-se das janelas, descem até às bordas dos canais para gritar "Duri i banchi !" ("aguenta, vais conseguir") aos corredores que passam 🏃. Coros cantam em certos pontos do percurso. O Parco San Giuliano transforma-se numa enorme zona de apoio popular 📢. E entrar em Veneza — esse momento em que se põe o pé nos paralelepípedos da Sereníssima depois de 30 km a correr — produz algo que os maratonistas que o viveram descrevem invariavelmente como fantástico.
O tempo de outubro acrescenta o seu próprio caráter à prova. Céus azul-cristal e 18°C, nevoeiro denso sobre a lagoa, chuva forte vinda da Ponte della Libertà ou um cocktail dos três na mesma manhã 🍸. Essa imprevisibilidade faz parte do pacto veneziano — uma cidade que nunca se parece exatamente com o que se esperava 🤓.
Em 2018, os últimos quilómetros da maratona chegaram a ter os pés dos corredores na água. Sim, Veneza — famosa pelas marés altas — não fez as coisas pela metade. A acqua alta obrigou os corredores a terminar uma maratona já difícil com água pelos tornozelos. Isso sim é uma memória... 😅

(Crédito da foto: Roberto Trombetta)
Os primeiros anos da Venicemarathon são muito italianos: Bettiol, Milani, Terzer, Goffi do lado masculino; Moro, Scaunich, Bizioli, Fogli do lado feminino. A prova era então uma fortaleza transalpina que apenas começava a atrair a atenção da elite internacional 🌍. Mas em 1990, aconteceu algo especial.
Gelindo Bordin, campeão olímpico em Seul em 1988, bicampeão europeu, aceita participar “por alguns quilómetros” para animar o evento. Só que o Bordin, uma vez lançado num percurso de maratona com corredores em êxtase por partilharem a estrada com ele, não consegue decentemente parar a meio. Ele cumpre os 42,195 km, vence em 2:13:41 e leva o troféu 🏆. O campeão olímpico que aparece para dar uma volta e acaba no lugar mais alto do pódio — é uma anedota que o site oficial da prova ainda conta com ternura palpável mais de trinta anos depois.
No ano seguinte, venceu o primeiro estrangeiro: o português Joaquim Pinheiro, depois de o favorito Francesco Panetta ter desistido na Ponte della Libertà devido a um joelho teimoso. Em 1995, Danilo Goffi estabeleceu o então recorde masculino em 2:09:26, e depois chegaram os anos 2000 — e com eles o Quénia. Julius Bitok, David Makori, John Bungei... os nomes sucedem-se e os tempos caem. Em 2009, John Komen fixou o recorde masculino do percurso em 2:08:13, uma marca que resistiria até 2022, apesar de gerações de elites de classe mundial neste traçado. Em 2017, Eyob Faniel conquistou a primeira vitória masculina italiana em vinte e dois anos em circunstâncias que merecem ser contadas: o grupo da frente seguiu motos-guia que não conseguiam aceder a certas ruelas de Veneza e perdeu dois minutos 🏍️. O Faniel, ligeiramente distanciado nesse momento, acabou na liderança por acaso devido a um erro de navegação. Uma vitória merecida, oferecida por uma falha coletiva de GPS
Do lado feminino, o domínio africano instalou-se com a mesma regularidade. Em 2011, a queniana Helena Kirop estabeleceu o recorde feminino em 2:23:37', ainda hoje imbatido. Em 2021, Sofia Yaremchuk trouxe para casa uma vitória feminina italiana após vinte e dois anos de espera, com uma corrida taticamente inteligente que será lembrada por muito tempo 📚.
(Crédito da foto: Venice Marathon)
Em 1986, inscrevia-se por correio ✉️. Hoje, os dorsais desaparecem em poucas semanas e a prova esgota meses antes. Os chips de cronometragem substituíram os cronometristas à mão. As redes sociais transformaram cada edição num festival de imagens 📲, e a ponte flutuante sobre o Grande Canal é provavelmente um dos cenários de maratona mais fotografados do mundo. A Expo Village, a aldeia de partida, os shuttles, as ofertas de alojamento organizadas: tudo se tornou mais profissional à medida que a prova cresceu.
Mas a essência não muda. A ponte flutuante continua a ser montada à mão alguns dias antes da prova e desmontada durante a noite que se segue. Os passadiços sobre as pontes venezianas são instalados e removidos todos os anos por equipas que recomeçam há quarenta anos. A Villa Pisani continua a abrir os seus portões no domingo de manhã. E os venezianos continuam a gritar "Duri i banchi" das mesmas margens, com a mesma mistura de exasperação carinhosa e orgulho genuíno por esta prova que, uma vez por ano, transforma a sua cidade impossível em algo ainda mais impossível 💫.
(Crédito da foto: Venice Marathon)
Uma edição de aniversário tem de ser conquistada. A Maratona de Veneza atravessou quarenta anos de outonos venezianos, uma pandemia, inesquecíveis acqua alta, recordes que resistiram durante décadas e campeões olímpicos incapazes de parar a meio. Cresceu de 713 corredores para 15.000 participantes ao longo de um fim de semana, sem nunca perder aquilo que faz voltar: correr até Veneza é diferente de tudo o resto. A 25 de outubro, a Villa Pisani abrirá de novo os seus portões, a ponte estará lá e, algures entre o km 38 e a Riva Sette Martiri, haverá aquele momento para o qual não se encontram palavras antes — e de que se fala a toda a gente depois.
Duri i banchi. 🦁
A plataforma de nova geração que permite a todos os corredores de qualquer nível, (re)descobrir o território francês e todo o seu património, ao encontrar as corridas que mais se lhes adequam.