No século VIII, o poeta chinês Li Bai escreveu um texto que permaneceu famoso por toda a China 🇨🇳: As Difíceis Estradas para Shu, no qual descreve os caminhos de montanha de Sichuan como tão íngremes que seria mais fácil subir ao céu do que atravessá-los ☁️. Doze séculos depois, alguém teve a ideia de organizar ali um ultra-trail. Li Bai provavelmente teria tido uma opinião sobre isso, mas não lhe perguntaram — dá para imaginar...😅.
O Shudao (literalmente “a estrada para Shu”) é uma rede de caminhos de montanha com mais de 2.000 anos, escavados na encosta de um penhasco durante a Dinastia Qin para ligar a China central à Bacia de Sichuan 🏯. Na época, era a única ligação terrestre entre esses dois mundos, separados geograficamente por cadeias montanhosas vertiginosas, e durante séculos exércitos, mercadores, diplomatas e caravanas inteiras usaram essas trilhas para manter o império vivo 🧑🏫. Na região de Guangyuan, no norte de Sichuan, a rede se estende por quase 300 quilômetros e contém mais de 130 sítios patrimoniais preservados 🏛️. É neste terreno, e em nenhum outro, que o Ultra-Trail Shudao by UTMB® colocou seus primeiros números de peito 🎫. A prova é muito jovem, com apenas uma edição inaugural em seu histórico, mas entrou no mundo do trail com uma identidade já fortemente definida. 3.700 corredores na linha de partida desta primeira edição, incluindo 98% chineses, e 37% mulheres, o que está longe de ser anedótico no panorama global do trail running 👏. O diretor de prova Qian Xin teve a sabedoria de não simplesmente impor um formato de corrida a uma paisagem: sua equipe passou cinco meses trabalhando com arqueólogos especializados na Estrada de Shu para desenhar um percurso em que cada posto de abastecimento e cada ponto de controle conta algo sobre a terra que atravessa 😌.
O percurso principal, o “DSD 100K”, liga Jiange a Zhaohua ao longo de 104 km e 3.800 metros de desnível positivo 📐, partindo do estádio em Jiange para subir até o cume do Monte Daping a 1.073 metros. O restante do trajeto encadeia lugares cujos nomes ecoam na história chinesa como nomes de batalhas num livro escolar: o Desfiladeiro de Jianmen com seus Setenta e Dois Picos, aqueles dois penhascos gêmeos que se erguem acima da passagem como se a própria montanha tivesse decidido filtrar as travessias por milênios 🦅; o Corredor Cuiyun e sua avenida de ciprestes, alguns com mais de 2.000 anos; e o penhasco de Liujiayan, onde slogans do Exército Vermelho entalhados na rocha durante a Longa Marcha dos anos 1930 nos lembram que esta estrada também carregou uma revolução sobre os ombros. Terraços de arroz envoltos em névoa, florestas de bambu e antigas casas de mercadores iluminadas por lanternas completam um quadro que parece tanto um filme histórico quanto uma corrida de montanha 🎋. O “CSD 70K” cobre 70,5 km com 3.100 metros de D+ e utiliza os trechos mais marcantes desta mesma rota num formato que ainda permite dormir numa cama na noite seguinte — o que não é pouco consolo 😄. O “MSD 50K” tem 42 km e 1.900 metros de desnível positivo. O “ESD 20K”, com seus 21,5 km e 900 m de D+, é a distância ideal para um primeiro gostinho do terreno sem hipotecar os joelhos pelo resto do inverno 😬.
Do lado das Running Stones, a “20K” atribui 1, a “50K” 2, e a “70K” e a “100K” 3 cada, a serem acumuladas de uma edição para a outra como parte do circuito internacional 🪨. A prova também se destacou pela sua medalha de finisher feita de papel com sementes: uma vez plantada no chão, dá origem a flores 🌸, e por uma iniciativa Leave No Trace que convida os corredores a recolher lixo ao longo do percurso. Numa Estrada de Shu preservada por 2.000 anos, é melhor ajudar a garantir que ela permaneça assim por mais algum tempo.
Guangyuan é uma cidade de 3,5 milhões de habitantes no norte de Sichuan, a cerca de duas horas de carro de Chengdu, a capital provincial e o portal natural da região 🐼. Sichuan é particularmente conhecida por sua culinária picante e pelo huājiāo, a pimenta-de-sichuan, que adormece a língua de um jeito que não se encontra em nenhum outro lugar do mundo culinário — e serve como uma preparação mental perfeitamente respeitável antes de 104 km de montanhas 🌶️. A prova acontece em novembro, com temperaturas frescas em altitude e aquela luz dourada de outono que transforma os ciprestes milenares do Corredor Cuiyun em algo que parece uma pintura em seda 📸.
O que torna o Shudao único entre todas as provas do circuito global UTMB World Series é que seu terreno não foi criado para a corrida — ele existia muito antes, impregnado de dois milênios de uso humano — e a prova se inseriu nele para encantar os trail runners mais ambiciosos e curiosos 🏔️.
A plataforma de nova geração que permite a todos os corredores de qualquer nível, (re)descobrir o território francês e todo o seu património, ao encontrar as corridas que mais se lhes adequam.