Você já ouviu falar de uma corrida de trilha de 100 milhas na Austrália? A Grampians Peaks Trail 100 Miler (ou GPT100, para quem conhece) é exatamente isso. Uma corrida australiana perdida em um parque nacional que parece outro planeta, realizada em uma trilha de caminhada que não foi construída para uma corrida, mas para homenagear uma terra 🇦🇺.
Porque é preciso falar da terra antes de falar de quilômetros. Os Grampians, ou Gariwerd (o nome dado pelos povos das Primeiras Nações que foram seus guardiões por muito mais tempo do que qualquer outra presença humana neste continente), não se parecem com nenhum outro lugar na Terra. Os povos aborígenes têm uma relação com esta terra que remonta a mais de 30.000 anos. Gariwerd está no coração das histórias de criação de muitas comunidades no sudoeste de Victoria. Trinta mil anos. Para colocar isso em perspectiva: as pinturas rupestres de Lascaux têm cerca de 17.000 anos. Os gregos antigos ainda não existiam. A corrida moderna como prática esportiva existe há aproximadamente um século e meio. Gariwerd tem a maior concentração de arte rupestre de todo o sudeste da Austrália, com centenas de sítios nas cadeias montanhosas. Billimina é o sítio de arte rupestre mais prolífico de toda Victoria, com mais de 2.000 símbolos. Então, quando você passa sob um penhasco de arenito às 3 da manhã com sua lanterna de cabeça e seus géis, você está se movendo ao lado de algo que a humanidade levou milênios para criar. Guarde isso no bolso da jaqueta! 💡 Quanto à história europeia, ela também é boa. Em 1836, o explorador Thomas Mitchell batizou essas montanhas depois de escalar o Monte Duwul, o ponto mais alto da cadeia. Ele escolheu “os Grampians” em referência ao terreno acidentado de sua Escócia natal, e colonos europeus chegaram logo depois, atraídos por seus relatos entusiasmados sobre as terras agrícolas. Os organizadores da GPT100, por sua vez, optaram por sistematicamente associar os dois nomes, Gariwerd/Grampians, em todas as suas comunicações 🙏. O parque em si é uma extravagância natural. O Parque Nacional de Grampians se estende por 167.219 hectares e também é refúgio para cangurus, equidnas, cacatuas e emas: animais que não estão nem aí para a sua corrida e vão atravessar a sua trilha quando der vontade. A vida selvagem australiana não tem nenhum conceito de “zona marcada”. E, honestamente, isso deixa tudo muito mais interessante. Um canguru te passando numa descida coloca o ego em perspectiva! 🦘
Agora, como essa corrida surgiu? A GPT100 segue a Grampians Peaks Trail, uma trilha de caminhada de 162 km inaugurada em 2021, originalmente projetada com 12 acampamentos intermediários para ser concluída em 13 dias a pé. É isso que um caminhante normal leva para atravessar toda a cadeia. A SingleTrack Events, a organização por trás da corrida, decidiu que dá para fazer correndo, sem parar, com um tempo limite de 50 horas. Ou é genial, ou completamente insano. Provavelmente as duas coisas ao mesmo tempo. A primeira edição foi inaugural, a reputação cresceu rápido e, em 2025, a GPT100 foi oficialmente integrada ao World Trail Majors. O que torna a GPT100 estruturalmente diferente da maioria das 100 milhas ao redor do mundo 🌎 é uma coisa simples: a trilha existia antes da corrida. Ela não foi criada para um evento esportivo. Ela foi traçada para mostrar todas as joias naturais do parque, sem concessões. Então são as exigências do terreno que impuseram as regras à corrida, e não o contrário. E você sente isso em cada quilômetro do percurso 🏔️.
A “100 Miler Solo” larga cedo na manhã de sexta-feira na Área de Piquenique do Mount Zero, no extremo norte da cadeia, por 162 km e 7.700 m de ganho de elevação até Dunkeld, no sul. Onze postos de apoio e 99% do percurso em pura single track de caminhada. Zero estrada, zero concessões. A novidade é o formato Duplas: dois corredores como uma equipe, mesmo percurso, nunca a mais de dois minutos de distância. Um formato que transforma a ultra em uma aventura compartilhada — e no argumento mais perigoso do mundo para convencer alguém a se inscrever com você. “Não se preocupe, vamos fazer companhia um ao outro” 😅. Para quem quer a experiência completa sem deixar as duas pernas por lá de uma vez, a “Stage Race” oferece as mesmas 100 milhas divididas em quatro dias, com retorno a Halls Gap a cada noite para dormir em uma cama de verdade 🛌. É a versão “mais tranquila” do desafio. A “GPT50k” cobre a seção norte da trilha entre Mt Zero e Halls Gap, uma ultra completa por si só — ninguém sai ileso apesar do número na embalagem. E a “GPT33” acontece no último dia do festival, entre os picos do sul: Mud-Dadjug/Mount Abrupt, Signal Peak e Wurgarri/Mount Sturgeon, até Dunkeld. Uma ótima forma de provar um pouco dos Grampians sem hipotecar suas articulações pelo resto do ano 🦵.
O percurso de 100 milhas merece uma descrição honesta, porque os números por si só não contam a história. Ele começa com a subida do Flat Rock, que de repente se abre para a Taipan Wall, um penhasco mítico de arenito no mundo da escalada australiana 🧗, antes de mergulhar em uma trilha que alterna caminho estreito e pedregoso, faixas de terra macia, cachoeiras e vistas de 360° sobre toda a cadeia 😍. A segunda seção, com suas longas subidas em direção a Duwul/Mount William, é vivida majoritariamente à noite pela maior parte do pelotão. É aí que a lanterna de cabeça vira sua melhor amiga e os quilômetros começam a pesar. A terceira passagem pelo Major Mitchell Plateau, até o ponto mais alto da corrida, a 1.167 m, é oficialmente identificada como o coração do problema — aquela em que as suas pernas começam a falar coisas, e a sua mente responde “talvez não” 🫣. E a última seção, com suas subidas em escadarias até os cumes do sul, é o tipo de trecho que dá vontade de chorar por dois motivos opostos ao mesmo tempo: dor e beleza. Na chegada em Dunkeld, uma festa espera os corredores 🎉.
A GPT100 também é uma classificatória para a Hardrock 100: a corrida americana nas Montanhas San Juan do Colorado, considerada uma das mais seletivas do mundo, o que a torna um sério trampolim estratégico para corredores de trilha que miram os grandes palcos internacionais. A prova também é registrada na ITRA e vale para o UTMB Index. Em termos de premiação em dinheiro, o vencedor solo masculino e a vencedora solo feminina levam para casa 1.620 dólares australianos ! 🤪
A próxima edição acontecerá no início de novembro. O QG da prova é Halls Gap, a vila no coração do parque nacional, a três horas de Melbourne — longe o bastante para parecer o fim do mundo, perto o suficiente para você não precisar organizar tudo com uma semana de antecedência. A vida selvagem estará lá, o arenito vai brilhar em laranja, os eucaliptos vão cheirar a resina aquecida pelo sol de novembro em Victoria, e centenas de corredores partirão rumo ao norte com a intenção de alcançar o sul 162 km depois. É grande, é selvagem, é exatamente o tipo de corrida que muda a forma como vemos as coisas 🔥.
A plataforma de nova geração que permite a todos os corredores de qualquer nível, (re)descobrir o território francês e todo o seu património, ao encontrar as corridas que mais se lhes adequam.